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Apartamento Genève

Tipo de projeto

Interores

Data

2025

Local

Brasília

Fotografia

Joana França

O apartamento é um dos primeiros duplex da cidade e o primeiro a contar com varandas em uma época em que sacadas ainda não eram permitidas. Entre seus elementos mais especiais está o painel exclusivo de Athos Bulcão, criado especialmente para cada uma das 16 unidades do edifício. Nesta unidade, o painel curvo, concebido originalmente para ocultar um pilar estrutural, permanece como presença viva e protagonista do espaço.

Nossa atuação envolveu a concepção espacial, a gestão completa da obra e o desenvolvimento dos interiores, incluindo a criação de peças autorais, como azulejos e tapeçarias. A proposta partiu da atualização da planta para atender às necessidades contemporâneas da família, preservando elementos originais e valorizando a memória do edifício.

Logo na chegada, a configuração foi invertida para que os sofás acolhessem quem entra. A área social foi reorganizada em estar e jantar, mantendo a vocação original para a biblioteca e reforçando o vínculo dos moradores com a leitura e o convívio. Obras e mobiliários icônicos, como esculturas de Ruy Ohtake e a Poltrona Mole de Sérgio Rodrigues, ajudam a construir uma atmosfera onde arte e arquitetura se encontram com naturalidade.

Um dos movimentos mais transformadores foi trazer a cozinha para a área social. Antes isolada na antiga área de serviço, ela passa a ocupar uma posição central na casa, refletindo o hábito dos moradores de cozinhar e receber. O volume rosado com bancada em semicírculo organiza os fluxos e cria uma integração fluida com a sala. A paleta cromática, construída a partir do desejo dos clientes de não ter branco no apartamento, resulta em um ambiente vibrante, quente e acolhedor.

Para complementar a paleta cromática, outro destaque do projeto são os papéis de parede ingleses originais, presentes tanto na área da cozinha quanto no quarto das filhas. Escolhidos a partir de um estudo aprofundado sobre a tradição histórica desse material — pesquisa que iniciamos em um projeto anterior na Holanda —, apresentam padrões repetidos que evidenciam sua dimensão artesanal. No espaço social, o modelo com motivos frutais e pequenos animais foi produzido pela técnica inglesa de serigrafia em camadas sucessivas de cor, criando profundidade visual e reforçando a presença de memória e significado no apartamento.

Desenvolvemos um azulejo exclusivo para o projeto, inspirado nos brises amarelos da fachada do edifício e nos semicírculos do pilotis, reinterpretados em movimento gráfico. Além dele, também criamos um tapete da sala principal que traz, em tons amarronzados, um desenho autoral do Lago Paranoá, marcado por círculos que indicam os bairros onde os moradores viveram ao longo da vida. Uma camada afetiva que atravessa o espaço de forma simbólica.

A escada existente foi reformulada e ganhou guarda-corpo em tom berinjela, tornando-se elemento marcante da verticalidade do pé-direito duplo. A iluminação foi pensada com precisão para valorizar o painel de Athos Bulcão e equilibrar os pontos de destaque, com o uso de lona tensionada e pendentes posicionados de forma assimétrica.

Materiais como o mármore Bege Bahia e o Branco Clássico, já presentes no edifício, foram retomados na intervenção, reforçando a continuidade histórica. Ao mesmo tempo, superfícies contemporâneas introduzem contraste e unidade visual.

No pavimento superior, a planta foi redesenhada para criar dois banheiros para o casal, um closet ampliado, nova suíte para as filhas, escritório, sala íntima e quarto de hóspedes. Elementos originais, como o painel curvo em lambris de madeira, foram restaurados e ampliados, recebendo novas inserções em tons azulados que evidenciam o diálogo entre passado e presente.

O resultado é um apartamento que equilibra memória e contemporaneidade com delicadeza. Um projeto conduzido de forma integral pelo nosso escritório, do conceito à obra, onde cada decisão nasce do diálogo entre arquitetura, arte e vida cotidiana.

Seguimos acreditando que intervir é, antes de tudo, um exercício de escuta. Preservar o que é essencial, transformar o que é necessário e criar espaços que revelem, com sensibilidade, a história de quem os habita.

© 2025 por Hersen Mendes Arquitetura. 

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